terça-feira, dezembro 20, 2011

Enfrentar, aceitar, flutuar, deixar o tempo passar - por Claire Weekes

O principio do tratamento pode ser resumido no seguinte:

Enfrentar.

Aceitar.
Flutuar.
Deixar o tempo passar.

Nada há de misterioso ou surpreendente nesse tratamento, mas é esclarecedor ver quantas pessoas afundaram ainda mais em seu colapso por fazer exatamente o oposto.

Olhemos de novo rapidamente a pessoa descrita no ultimo capitulo, a pessoa que tem medo de sensações físicas despertadas pelo medo, e vejamos se podemos determinar o tratamento que ela própria deu ao colapso que sofreu.

Em primeiro lugar, ela ficou indevidamente alarmada pelos sintomas, examinando cada um deles à medida que aparecia, observando-os apreensiva. Tentou livrar-se das sensações indesejáveis tornando-se tensa para enfrentá-las ou expulsá-las, procurando agitadamente ocupação para forçar o esquecimento. Em outras palavras, lutando ou fugindo.

Alem disso, sentiu-se perplexa porque não conseguia encontrar a cura da noite para o dia. Continuava lembrando-se e preocupando-se porque passara muito tempo e ela ainda não estava curada, como se aquilo fosse um mau espírito que pudesse ser exorcizado, se ela ou o medico conhecesse o truque. Estava impaciemte com o tempo:

Em suma, passava seu tempo:
Fugindo, sem enfrentar.
Lutando, sem aceitar.
Parando e “prestando atenção”, sem passar flutuando.
Sendo impaciente com o tempo, em deixar o tempo passar.Agora, consideremos, como você pode curar-se enfrentando, aceitando, flutuando e deixando o tempo passar.


Comece com a sensação nervosa em seu estomago, o chamado estomago embrulhado. Pode ser um estremecimento desagradável ou pode ser uma pressão firme como algo quente que passe de seu estomago para suas costas. Não fuja dela. Acompanhe-a. relaxe-se e analise-a. leve uns dez minutos para fazer isso, antes de continuar lendo.
.
Agora que você enfrentou e examinou, é muito terrível? Se tivesse artrite no pulso, você estaria preparado para trabalhar com a dor da artrite sem ficar muito perturbado. Porque considerar essa sensação no estomago tão diferente da dor comum a ponto de poder assustá-lo? Deixe de considerá-la como um monstro que tenta dominá-lo. Compreenda que não é mais do que a ação de nervos descarregadores de adrenalina ultra-sensibilizados e que, encolhendo-se constantemente para fugir deles, você estimulou um fluxo excessivo de adrenalina que excitou mais seus nervos de modo a produzirem mais sensações no estomago.
.
Enquanto examina e analisa esse estômago embrulhado, uma coisa estranha pode acontecer: você pode descobrir que sua atenção está-se desviando de si próprio. Essa “coisa”, que parecia tão terrível enquanto permanecia tenso e fugia dela, pode não prender mais sua atenção durante muito tempo quando você a vê como ela é – nada mais do que uma estranha sensação física, sem grande significação medica e incapaz de causar verdadeiro mal.

Por isso, prepare-se para aceitá-la e viver com ela durante algum tempo. Aceite-a como algo que estará com você durante mais algum tempo. Aceite-a como algo que oportunamente o deixará, se você estiver preparado para deixar o tempo passar e não ficar observando ansioso o seu estômago embrulhado enquanto ele passa.

À medida que melhora, que não tem mais medo do estômago embrulhado, que não tenta curá-lo controlando-o e que se sente preparado para aceitá-lo e trabalhar com ele presente, você se tornará mais interessado em outras coisas e gradualmente deixará de notar se o estômago está embrulhado ou não. Este é o caminho da recuperação.

Pela verdadeira aceitação, você rompe o ciclo medo-adrenalina-medo, em outras palavras o ciclo estômago embrulhado-adrenalina-estômago embrulhado.

VERDADEIRA ACEITAÇÃO
Nesta discussão você terá apreciado que verdadeira aceitação é a chave de sua recuperação e, antes de continuar com o exame de seus outros sintomas, devemos ter certeza de que compreendemos sua significação exata.

Descobri que alguns pacientes se queixavam: “Eu aceitei meu estomago embrulhado, mas ele ainda está lá. Que é que eu faço agora?” Como você pode tê-lo aceitado, se ainda se queixa a respeito dele?

Ou então, como me disse um velho: “Depois do desjejum, o estomago começa a embrulhar. Não posso ficar sentado lá e deixá-lo embrulhar. Se o ficasse, estaria exausto depois de uma hora, por isso preciso levantar-me e caminhar. Mas estou cansado demais para caminhar. Que devo fazer.” Perguntei-lhe: “Você aceitou realmente seu estomago embrulhado?” “Oh, é claro que sim”, respondeu indignado. “Eu não tenho mais medo dele.”

Mas obviamente tinha. Tinha medo que depois de uma hora com o estomago embrulhado ficasse exausto, por isso sentava-se tensamente temendo o estomago embrulhado, fugindo dele quando chegava e preocupando-se com a exaustão que se seguiria. Naturalmente, o estomago embrulhado, que é em si próprio um sintoma de tensão, vem inevitavelmente quando a pessoa o espera tão tensamente.

Tentei fazer esse velho compreender que precisava estar preparado para deixar seu estomago embrulhar e continuar lendo seu jornal, sem prestar atenção a isso. Só assim estaria verdadeiramente aceitando seu estomago embrulhado. Dessa maneira, e só dessa maneira, chegaria oportunamente ao estágio em que não importaria mais se o estomago embrulhava ou não. Depois livre do estimulo da tensão e ansiedade, seus nervos descarregadores de adrenalina se acalmariam gradualmente e o estomago automaticamente embrulharia menos e finalmente deixaria de embrulhar.

A este homem nada mais foi pedido do que mudar sua posição de apreensão para aceitação. Os sintomas desse tipo de colapso são sempre um reflexo de sua disposição de ânimo. Contudo, é bom lembrar que pode demorar algum tempo para que seu corpo reaja à nova disposição de aceitação e ele pode continuar durante algum tempo a refletir a disposição tensa e amedrontada das semanas, meses ou anos anteriores. Esta é uma das razoes pelas quais colapso nervosos pode ser intrigante e pelas quais aquele velho ficou intrigado. Ele começou a aceitar, mas quando os sintomas não desapareceram imediatamente, logo perdeu a coragem e ficou novamente apreensivo, embora tentando convencer-se de que estava aceitando. Leva tempo para um corpo estabelecer aceitação como disposição de animo e para que esta oportunidade traga paz, da mesma maneira como leva tempo para que o medo se torne estabelecido como tensão e ansiedade continuas. É por isso que “deixar o tempo passar” é parte tão importante de seu tratamento e é por isso que eu acentuei o fato vezes e vezes. Tempo é a resposta. Mas é preciso que aja aquele fundo de verdadeira aceitação enquanto se espera que o tempo passe.

Certifique-se de que você entende a diferença entre verdadeira aceitação e apenas pensar que está aceitando. Se é capaz de deixar seu estomago embrulhar, suas mãos suarem, seu coração bater rapidamente e sua cabeça doer, sem lhes prestar muita atenção, você está verdadeiramente aceitando. Não importa muito se a principio você não puder fazer isso calmamente. Pode ser impossível sentir-se calmo nesse estágio. Tudo quanto eu lhe peço como verdadeira aceitação é estar preparado pra viver e trabalhar com seus sintomas sem lhes dedicar muito respeito.


O Limitado Poder dos Nervos Descarregadores de Adrenalina

Depois de examinar essas “terríveis sensações”, eu quero que você permaneça sentado, concentre-se em cada uma delas por suas vez e tente torná-las piores. Você descobrirá que não é capaz.

Aparentemente, o poder dos nervos descarregadores de adrenalina é limitado. Você talvez consiga intensificar ligeiramente seu efeito com concentração, mas só ligeiramente. No entanto, durante todo esse tempo, sem percebê-lo, você esteve se encolhendo para não enfrentar esses sintomas diretamente porque, se o fizesse, poderia torná-los pior. Era como se você estivesse olhando de esguelha para eles, cheio de medo.

Deixe-me tranqüilizá-lo. Você não pode aumentar seus sintomas enfrentando-os ou mesmo tentando intensificá-los. De fato, você talvez descubra que, quando tenta conscientemente torná-los piores, eles melhoram. O próprio ato de concentrar-se neles dessa maneira significa que, pelo menos durante algum tempo, você os olha com interesse e não com medo, e mesmo essa folga da tensão pode ter um efeito calmante. Sintomas só podem ser intensificados por medo e sua resultante tensão, nunca por relaxamento, enfrentamento e aceitação. Você está começando a desconfiar que seus sintomas o enganaram? Sem duvida nenhuma.

Uma estudante cujas sensações eram muito semelhantes às que eu descrevi não conseguia progredir em seu estudo por causa do coração disparado, mãos suadas e estomago embrulhado. Um dia, quando pensava que ia ficar louco a menos que obtivesse alivio, um amigo, ex-soldado, foi visitá-lo. Ele falou ao amigo sobre seus sofrimentos e acrescentou; “Não posso aquentar mais. Fiz tudo o que pude para lutar contra isso e não sei mais pra onde me voltar. Certamente existe um meio de sair deste inferno.”

O amigo explicou que, na frente de batalha, muitos soldados tinham os nervos assim até quando percebiam que estavam apenas sendo enganados por eles.aconselhou o jovem a não se deixar mais enganar por seus nervos, passar flutuando sobre todas as sugestões de auto piedade e medo, e continuar trabalhando.

O estudante viu a luz e, enquanto, antes evitava por um pé a frente do outro por temor de lesar seu coração, em duas semanas estava escalando montanhas. Isso aconteceu há anos. A pessoa ainda tem sensações semelhantes quando se esforça demais, mas sabe que elas passarão se relaxar-se, aceitá-las e passar por elas flutuando. Aprendeu a viver com seus nervos.

Flutuar

Flutuar é tão importante quanto aceitar e tem efeitos igualmente mágicos. Eu poderia dizer que “flutuar”e não “lutar”deve ser seu lema, porque a verdade é essa.

Permita-me ilustrar mais claramente a significação de flutuar neste sentido. Uma paciente ficou com tanto medo de encontrar gente que não entrou em lojas durante meses. Quando lhe pedi para fazer uma pequena compra, ela disse: “Não posso entrar em uma loja. Eu tentei, mas não posso. Quanto mais me esforço, sinto-me paralisada e não consigo por um pé à frente do outro. Assim, por favor, não me peça para entrar em uma loja.”

Falei-lhe que podia ter pouca esperança de conseguir resultados enquanto tentasse forçar-se daquela maneira. Essa era a luta contra a qual eu a prevenira anteriormente. Expliquei que ela devia imaginar que entrava flutuando na loja, não que lutava para caminhar até seu interior. Para tornar isso mais fácil, ela podia imaginar que estava realmente em cima de uma nuvem, flutuando através da porta. Expliquei também que ela podia ajudar-se ainda mais fazendo todo pensamento obstrutivo sair flutuando de sua cabeça, reconhecendo que não eram mais que um pensamento e que não precisava deixar-se enganar e dar-lhe atenção.

Quando voltou, estava alegríssima e me disse: “Não me detenha. Ainda estou flutuando. Quer que eu flutue para algum outro lugar?”

É estranho, não é, como uma simples palavra pôde libertar uma mente que estava presa havia meses? A explicação é muito simples. Quando luta, você fica tenso e tensão inibe ação. Quando pensa em flutuar, você se relaxa e isso ajuda a ação. Essa mulher estava em tal estado de tensão que eu a vi quase derramar lagrimas quando, com mãos tremulas, tentava encontrar uma chave de automóvel em sua bolsa. Depois que aprendeu a flutuar, um dia, quando se entregava a busca semelhante, ela me disse; “Sinto muito estar tomando seu tempo. As chaves não podem estar muito longe. Já passei flutuando por duas contas, um batom e uma bolsinha. Vou flutuar mais um pouco mais um pouco e encontrá-las.”as mãos, antes tremulas, estavam quase firmes. Ela havia aprendido a passar flutuando pela tensão.

Inatividade perfeita

Inatividade perfeita é outra maneira de descrever a ação de flutuar. Significa abandonar a luta, deixar de agüentar firme tentando controlar seu medo, tentando ‘fazer alguma coisa contra aquilo”, ao mesmo tempo que se submete a constante auto-análise. Significa não tentar mais sair do colapso pelo seu próprio caminho, enfrentando cada obstáculo, como se fosse um desafio que precisa ser vencido antes que se torne possível a recuperação. Significa contornar a luta, caminhar em volta da montanha, não sobre ela, flutuar e deixar o tempo passar.

A pessoa mediana, que lutam tensamente, tem aversão inata a praticar inatividade perfeita e deixar as coisas correrem. Pensa vagamente que, se o fizesse, perderia o controle sobre o ultimo vestígio de sua força de vontade e suas coisas ruiriam. Como disse um jovem: “Eu sinto que preciso ficar de guarda. Se deixasse as coisas correrem, certamente algo arrebentaria. É absolutamente necessário que eu mantenha o controle e agüente firme.” Quando era obrigado a falar com estranhos, enterrava as unhas nas palmas da mão, enquanto tentava controlar seu corpo trêmulo e ocultar seu estado de tensão nervosa.

Olhava o relógio ansiosamente, perguntando a si próprio por quanto tempo mais conseguiria manter esse disfarce sem se desmanchar.

Afrouxando Sua Atitude

É especialmente para essas pessoas tensas, controladas, que roem unhas, que eu digo: “Pratique inatividade perfeita e deixe as coisas correrem.” Se seu corpo treme, deixe-o tremer. Não se sinta obrigado a fazê-lo parar. Não tente ser normal. Nem mesmo tente relaxar-se. Simplesmente deixe a idéia de relaxação entrar em sua mente, em sua atitude para com seu corpo. Afrouxe sua atitude. Em outras palavras, não se preocupe porque está tenso e não consegue relaxar-se. O próprio ato de estar preparado para aceitar sua tensão relaxa sua mente e a relaxação do corpo segue-se gradualmente. Você não precisa esforçar-se para obter relaxação. Precisa esperar por ela. Quando um paciente diz; “Tentei o dia inteiro ficar relaxado”, certamente ele teve um dia de esforço, não de relaxação. Deixe seu corpo encontrar seu próprio nível sem controlá-lo e dirigi-lo. Creia-me, se fizer isso, você não se desmanchará. Não abandonará o verdadeiro controle sobre si próprio. Você subirá flutuando das profundezas do desespero até a superfície.

O alivio de afrouxar seu tenso domínio sobre si próprio, de abandonar a luta e reconhecer que não existe batalha a travar, exceto a que você próprio cria, pode trazer uma calma que você esqueceu que existia dentro de si. Em seu tenso esforço para controlar-se, você tem descarregado cada vez mais adrenalina e excitado seus órgãos de modo a produzirem as próprias sensações de que você estava tentando escapar.

Passe flutuando pela tensão e pelo medo.
Passe flutuando por sugestões indesejáveis.
Flutue, não lute.
Aceite e deixe o tempo passar. 


(extraído do livro ´Domine seus nervos´)