Radicada na Alemanha, a carioca Cristina Canale denuncia a "arte de brechó"
Cleusa Maria
(publicado no JB de 12/11/2002)
(...)
Na entrevista abaixo, Cristina Canale diz que já perdeu a paciência com essa conversa de que a pintura já era. Mas sabe que há artistas que pintam e fingem que não: "Eles saem pela tangente. Isso é a cara dos anos 90".
- No que a Alemanha colaborou com sua carreira?
- Primeiro, com muita tranquilidade. Tive também informações em primeira mão. Quando se recebe uma informação no Brasil, ela já vem com juízo de valor, que não é necessariamente o meu. A Alemanha, atualmente, é o grande centro de arte do mundo, com Inglaterra e Estados Unidos. Tem um circuito muito forte e um grande número de museus, galerias, centros culturais. Desmistifiquei um punhado de coisas nesses anos morando em Berlim e parti para ser o que sou mesmo como artista.
- E o que a senhora é mesmo como artista?
- Sou uma pintora. Isso eu decidi. Vamos parar com esse papo de que pintura já era, de que é uma linguagem que não se adapta aos tempos contemporâneos. Nossa percepção emocional continua precisando de imagens materiais do mesmo jeito que antes. Podem até mudar os códigos, as formas de contemplação. Atualmente, alguém pintar como Leonardo [Da Vinci] seria um pouco defasado, mas há outras maneiras de pintar.
- Qual é o grande desafio da pintura hoje?
- Com toda essa carga de tradição, com todo um caminho trilhado na História da Arte, o maior desafio é conseguir avançar na imagem, trazer uma pintura inusitada. Isso não se dá apenas na pintura, mas na arte de modo geral. Tem muita arte de brechó por aí.
- E o que é arte de brechó?
- Você pega catálogos dos anos 60, ainda em preto e branco, e vê trabalhos iguaizinhos aos que os novíssimos estão fazendo. Fico me questionando se eles sabem que os avós deles faziam isso também. A grande maioria dos pintores, não só no Brasil como no mundo, está fazendo uma boa pintura. Mas tem um monte de gente que pinta e finge que não está pintando, sai pela tangente. Isso é a cara da década de 90.
- Como está o mercado para a pintura?
- De uns anos pra cá, o interesse dos colecionadores e do público, na Europa, voltou a crescer. No meu caso, vai lento, mas vai [o preço médio de uma tela de Cristina é de R$ 15 mil]. O europeu, principalmente o alemão, precisa de muito tempo pra assimilar o trabalho de um artista.
- Como vai a arte brasileira?
- Quando cheguei na Alemanha, havia muita ignorância sobre a arte brasileira. Dizer que era um artista brasileiro era como se dizer um esquimó. Isso já mudou, depois das participações dos brasileiros na Documenta de Kassel e de exposições como a da coleção de Gilberto Chateaubriand.
Atualmente, no Brasil, já existe um meio complexo com exposições importantes e curadores, que pode não ser tão eficiente ou grande como na Alemanha - que tem trilhões de dólares pra gastar - mas existe. Quando comecei há 20 anos, essa rede era mais simplória. Hoje os artistas são mais bem trabalhados, nacional e internacionalmente. Acho que há uma arrancada da arte no mundo inteiro, desde a década de 80.
- E aonde essa arrancada vai levar?
- Acho que estamos num impasse. Depois da euforia dos anos 80, da estabilização dos anos 90, a pergunta que se faz é: o que significa ser um artista profissional? Como continuar sendo artista, vivendo de arte e conseguir realizar suas idéias com autonomia? É preciso ter uma certa doutrina de não se deixar levar pelos modismos.
- A arte entrou na moda?
- Eu questiono se as pessoas estão realmente olhando a arte ou se, quando vão a exposições grandonas, estão a fim é de diversão. Sera que essas exposições funcionam como um parque de diversões pros adultos e não como um exercício de olhar, de pensar, de questionar? Às vezes, a arte pode cair no factóide, no entretenimento, e perder a profundidade. Outro dia, tinha uma artista em Berlim que fez uma instalação montando uma sauna a vapor com a água que havia sido usada para lavar cadáveres...Nesse circuito de diretores de instituições, críticos de arte, curadores cada vez mais poderosos, me pergunto: onde ficam os artistas?
- E onde ficam?
- Nos seus ateliês, se confrontando com suas questões, tentando solucionar seus trabalhos, no meio dessa teia aleatória, autônoma. Arte não é isso. Nessa rede de poder, onde deveria ser a estrela, o artista acaba correndo o risco de virar um dependente.

2 comentários:
Oi Gus
Passei para um visita e já estou seguindo teu blog.
Apareça lá no meu,siga,deixe comentários.
Abraços
Olá Gus!
To na comunidade do panico e tenho um blog também, vai lá me visitar!!
=)
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